O Exército Sombrio de Cuba na Ucrânia: A Aliança Silenciosa de Havana com Moscou
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O Exército Sombrio de Cuba na Ucrânia: A Aliança Silenciosa de Havana com Moscou

Por,


Resumo

Evidências crescentes indicam que cidadãos cubanos — variando de centenas a vários milhares — estão lutando em nome da Rússia na Ucrânia. Embora Havana negue oficialmente envolvimento e afirme se opor ao “mercenarismo”, reportagens investigativas, estimativas da inteligência ucraniana e testemunhos de familiares de combatentes apontam para um pipeline de recrutamento organizado.


Cubanos são atraídos com promessas de salários médios de 195.000 rublos por mês (≈USD 2.000) e cidadania russa acelerada, apenas para se encontrarem na linha de frente. A escala desse fenômeno é debatida: contagens conservadoras indicam algumas centenas em combate no início de 2024 (The Wall Street Journal, 2024), enquanto a inteligência militar ucraniana (GUR), citada pelo El País, estima que até 20.000 cubanos passaram por contratos russos desde 2022 (El País, 2025). Um briefing do Congresso dos EUA em 18 de setembro de 2025 reforçou essas preocupações, apresentando evidências de cumplicidade estatal, exploração sistêmica e a necessidade de uma resposta coerente EUA–UE (U.S. House of Representatives, Subcommittee on National Security, 2025).

Introdução: Dos Exilados de Miami às Trincheiras da Ucrânia


Em Miami, um cidadão ucraniano declarou recentemente de forma direta: “Um número significativo de cubanos está lutando em nome da Rússia.” Sua convicção ecoa o que surgiu através de vazamentos, jornalismo e testemunhos.

Não se trata apenas de rumores. Enquadra-se em um padrão mais amplo: um regime em queda econômica, um aliado desesperado por soldados e um pipeline de recrutamento que se estende de Havana a Tula. Pela primeira vez desde Angola nos anos 1970, cubanos estão novamente lutando em uma guerra estrangeira — não sob sua própria bandeira, mas sob a da Rússia (Reuters, 2023a; El País, 2025).

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Evidências de Combatentes Cubanos na Ucrânia

  • Relatórios iniciais (2023): Em maio de 2023, veículos russos em Ryazan relataram cubanos assinando contratos com o Exército Russo em troca de cidadania (Reuters, 2023a). No verão, surgiram vídeos de jovens cubanos enganados em combate (El País, 2025).
  • Redes de recrutamento: Em setembro de 2023, Havana alegou ter desmontado uma rede de tráfico e preso 17 indivíduos (AP, 2023; Reuters, 2023b). No entanto, evidências posteriores de partidas lançaram dúvidas sobre essas afirmações.
  • Confirmação por OSINT: A unidade investigativa Schemes da RFE/RL documentou recrutas cubanos treinando na 106ª Divisão Aerotransportada da Guarda em Tula, corroborada por mídias sociais geolocalizadas e imagens de satélite (Radio Free Europe/Radio Liberty [RFE/RL], 2025).
  • Estimativas ucranianas: Um diplomata ucraniano disse ao The Wall Street Journal em fevereiro de 2024 que aproximadamente 400 cubanos estavam na linha de frente (The Wall Street Journal, 2024). Outro parlamentar citou 1.500–3.000. Em junho de 2025, o El País, citando inteligência do GUR, relatou um total acumulado de 20.000 recrutas desde 2022, com 6.000–7.000 ativos (El País, 2025). Esses números ainda não foram verificados pela inteligência ocidental, mas sublinham a dimensão da preocupação.

Funções, Recrutamento e Exploração


Os combatentes cubanos não estão restritos a funções de apoio; servem como infantaria em Kherson, Donbas e Bakhmut. A morte de Raibel Palacio, de 21 anos, em Kherson no final de 2023, ilustra o custo (The Wall Street Journal, 2024).

Os métodos de recrutamento seguem um padrão:

  • Promessas: Salários próximos a 195.000 rublos/mês (≈USD 2.000 em taxas de 2023–2024) e cidadania (TIME, 2023).
  • Realidade: Treinamento mínimo, equipamentos precários e salários não pagos; em alguns casos, retenção forçada após o término do contrato (TIME, 2023).
  • Engano: Muitos recrutas foram informados de que trabalhariam em construção ou segurança. Um admitiu que havia “assinado um contrato com o diabo” (Politico, 2023).

Briefers ucranianos alegam que até 40% dos recrutas provinham dos serviços militares ou de segurança de Cuba, alegação ainda contestada e não verificada (El País, 2025).

Por que o Sigilo?

  • Havana: Mantém a negação, apresentando os combatentes como vítimas de traficantes. Admitir cumplicidade poderia gerar agitação e sanções.
  • Moscou: Recrutas estrangeiros preenchem lacunas de pessoal, mas o reconhecimento público prejudicaria a narrativa de mobilização patriótica.
  • Quiev: Destaca o envolvimento cubano de forma seletiva, especialmente em fóruns da UE e da América Latina, evitando excesso de ênfase para manter o foco em Moscou e Teerã (Reuters, 2023b).

A Dimensão do Congresso: Vinculando Havana à Máquina de Guerra de Moscou


Em 18 de setembro de 2025, durante um briefing do Subcomitê de Segurança Nacional da Câmara dos EUA, liderado pelo deputado Mario Díaz-Balart, oficiais de inteligência ucranianos e parlamentares apresentaram novos dados aos legisladores (U.S. House of Representatives, Subcommittee on National Security, 2025). Suas evidências incluíam:

  • Escala: Mais de 1.000 identidades cubanas verificadas em contratos assinados entre junho de 2023 e fevereiro de 2024; pelo menos 250 casos de retenção forçada após o término do contrato.
  • Casualidades: ≥40 cubanos confirmados mortos, com o número real provavelmente em centenas; sobrevivência média de 140–150 dias, alguns morrendo em menos de uma semana.
  • Exploração: Recrutas frequentemente sem pagamento; um recrutador russo admitiu desviar salários de 300–400 cubanos.
  • Cumplicidade: O recrutamento em larga escala é improvável sem a aprovação de Havana; e-mails hackeados mostram oficiais russos recrutando em solo cubano.

Os legisladores destacaram que a mão de obra cubana reduz baixas russas e prolonga a guerra. Situa-se Havana dentro de um eixo autoritário mais amplo — Rússia, Cuba, Irã, Coreia do Norte, China e Venezuela — que sustenta a agressão apesar das sanções. A comissária Rosa María Payá e os deputados Díaz-Balart, Giménez e Salazar pediram coerência política: a Europa não pode financiar Havana enquanto pede que Washington apoie a Ucrânia (U.S. House of Representatives, Subcommittee on National Security, 2025).

Implicações e Propostas de Política


Líderes do Congresso propuseram medidas concretas:

  1. Designação e Diplomacia: Pressionar a UE a suspender créditos e ajuda a Havana; considerar designação como estado terrorista.
  2. Sanções direcionadas: Punir recrutadores, companhias aéreas e facilitadores financeiros; aplicar sanções secundárias a operadores de frotas sombrias.
  3. Pressão financeira: Confiscar ativos russos imobilizados para a Ucrânia; interromper canais de lavagem de dinheiro cubanos.
  4. Medidas humanitárias: Estabelecer mecanismos de saída segura para cubanos presos via CICV e OIM.
  5. Operações de informação: Documentar baixas cubanas; combater propaganda cubana/russa na América Latina.

Motivos Geopolíticos

  1. Linha de vida econômica: Moscou perdoou bilhões da dívida cubana e forneceu petróleo vital; a mão de obra é a forma de pagamento de Havana (Reuters, 2023a).
  2. Alinhamento estratégico: Apoiar a Rússia sinaliza solidariedade antiamericana (El País, 2025).
  3. Alívio doméstico: Exportar jovens desempregados ou descontentes alivia agitação interna.
  4. Mão de obra como moeda: Se a estimativa do GUR estiver correta, Cuba está exportando combatentes em escala não vista desde a Guerra Fria — agora por dinheiro e passaportes, não ideologia (El País, 2025).

Conclusão: O Retorno do Legado Expedicionário de Cuba


Se a estimativa do GUR for precisa, o papel secreto de Cuba na Ucrânia representa a maior presença de seus nacionais no exterior desde Angola. Se forem centenas ou dezenas de milhares, o fato é inegável: cubanos estão lutando — e morrendo — pela Rússia.

Para Moscou, cubanos são reforços descartáveis. Para Havana, são peças de barganha por petróleo e crédito. Para Washington e Bruxelas, são um teste de coerência política: a ajuda ocidental à Ucrânia não pode coexistir com linhas de vida europeias a Havana. É tragédia e alerta simultaneamente: a guerra na Ucrânia não é apenas da Europa, mas um conflito global por procuração que se estende do Caribe à Península Coreana.


Referências


AP. (2023, 8 de setembro). Cuba arrests 17 for allegedly helping recruit its citizens to fight for Russia in Ukraine. Associated Press. https://apnews.com
El País. (2025, 9 de junho). Russia recruits Cubans for the frontlines in Ukraine: “It’s all been a scam.” https://english.elpais.com
Politico. (2023, setembro). We signed a contract with the devil: How Russia recruits foreign fighters. https://politico.eu
Radio Free Europe/Radio Liberty. (2025, 19 de fevereiro). Russia turns to Cuban recruits as it struggles with conscription. https://rferl.org
Reuters. (2023a, 5 de setembro). Cuba uncovers human trafficking of Cubans to fight for Russia in Ukraine. https://reuters.com
Reuters. (2023b, 15 de setembro). Cuba issues conflicting statements on use of its citizens in Ukraine war. https://reuters.com
The Wall Street Journal. (2024, 16 de fevereiro). How Russia recruits soldiers from Cuba to fight in Ukraine. https://wsj.com
TIME. (2023, 18 de setembro). How Russia is recruiting Cubans to fight in Ukraine. https://time.com
U.S. House of Representatives, Subcommittee on National Security. (2025, 18 de setembro). Díaz-Balart National Security Briefing: Exposing Cuban regime troops fighting for Russia. Testemunho congresso não publicado.

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Miami Strategic Intelligence Institute (MSI²).