27 Sep Inteligência Artificial, Energia Nuclear e Minerais Críticos: As Apostas Geoestratégicas das Parcerias dos EUA na América Latina
Por,
CDR José Adán Gutiérrez, USN (Aposentado): Análise Geoestratégica
Dr. Luis Noguerol: Chefe de Ciber e TI
Dr. Rafael Marrero: Economista Chefe
MSI²
Resumo
Este artigo analisa a importância geoestratégica e geoeconômica das parcerias dos Estados Unidos em inteligência artificial (IA), energia nuclear e minerais críticos na América Latina, com foco na Argentina como estudo de caso. Essas parcerias são avaliadas à luz da crise financeira em curso na Argentina, que gerou ofertas de apoio à estabilização por parte dos EUA. Ao integrar ecossistemas de IA, apoiar o desenvolvimento de reatores modulares pequenos (SMR) e garantir acesso a cadeias de suprimento de minerais críticos, Washington busca reafirmar sua influência no hemisfério. A análise conclui que, embora a China continue sendo um ator significativo, as iniciativas dos EUA podem reequilibrar o cenário estratégico — se acompanhadas de apoio condicional e mitigação de riscos — resultando em um cenário de ganha-ganha e enviando uma mensagem poderosa: as nações que se alinham aos Estados Unidos, em vez da China, podem encontrar apoio decisivo em tempos de crise.
Introdução
A América Latina ressurgiu como um palco crucial na rivalidade EUA-China. Pequim expandiu sua presença do comércio de commodities para setores de alta tecnologia, garantindo participação na mineração de lítio, cobre e terras raras, enquanto investia em portos estratégicos como Chancay, no Peru (Reuters, 2024a; Financial Times, 2024). A influência da China também inclui infraestrutura digital através da Huawei, serviços em nuvem e ativos espaciais, como a instalação de espaço profundo em Neuquén, Argentina, cujos termos de arrendamento opacos levantam preocupações sobre uso duplo (Reuters, 2019).
Paralelamente, Washington busca uma estratégia integrada combinando IA, energia nuclear e parcerias em minerais críticos para restaurar sua liderança no hemisfério (U.S. Department of State, 2025a). A crise econômica atual na Argentina e a oferta de apoio à estabilização pelos EUA acrescentam urgência e complexidade a este esforço (Reuters, 2025; Financial Times, 2025a).
Parcerias em IA como Ferramentas Estratégicas
A inteligência artificial está no centro da competição entre grandes potências. Os Estados Unidos promovem a “IA americana” por meio de iniciativas como a Partnership for Global Inclusivity on AI (PGIAI), lançada com parceiros da indústria para expandir o acesso e a capacitação em IA globalmente (U.S. Department of State, 2024). O Plano de Ação de IA da Casa Branca (2025) identifica explicitamente a diplomacia e a definição de padrões como ferramentas para alinhar países parceiros aos marcos dos EUA (White House, 2025).
Ao integrar ecossistemas de IA baseados nos EUA na América Latina, Washington oferece padrões de governança democrática e infraestrutura digital confiável. Essa estratégia não apenas apoia a inovação, mas também reduz o risco de dependência de plataformas chinesas, que apresentam preocupações de vigilância e segurança de dados (Altman, 2025). Embora os resultados não sejam garantidos, essas iniciativas aumentam a probabilidade de que os padrões regionais de IA se alinhem aos interesses dos EUA.

Argentina: Um Caso Estratégico
Capacidade em IA e Digital
A alta penetração da internet na Argentina (perto de 90%) e o crescimento do setor tecnológico a posicionam como um hub viável de IA (Infobae, 2025). O governo de Milei criou incentivos para investimento estrangeiro, sinalizou alinhamento mais próximo com Washington e promoveu a desregulamentação para atrair desenvolvimento em IA (CSIS, 2025). Analistas afirmam que essa trajetória poderia tornar a Argentina um exemplo de IA alinhada aos EUA no Sul Global (CSIS, 2025).
Além da cooperação tecnológica, um ecossistema colaborativo de IA oferece suporte econômico e infraestrutural tangível, estabilizando a Argentina como parceiro regional (Korn & Cruz, 2025). O acesso direto a softwares, infraestrutura em nuvem e programas de treinamento especializado acelera a transformação digital, beneficiando startups, pesquisa acadêmica e modernização do setor público. A integração de marcos dos EUA também garante qualidade, confiança e uso responsável de análises avançadas em áreas como saúde, educação e gestão de recursos públicos. Dessa forma, a IA americana se torna não apenas uma ferramenta de influência, mas um recurso prático que fortalece a governança democrática e os padrões de segurança de dados (ECLAC, 2025).
Energia Nuclear e Necessidades Energéticas da IA
A infraestrutura de IA demanda eletricidade massiva e constante. A experiência da Argentina em inovação nuclear proporciona vantagem. Em dezembro de 2024, o presidente Milei lançou um plano para implantar SMRs para alimentar indústrias intensivas em dados (Infobae, 2025). Em 2025, a Argentina se tornou o primeiro país latino-americano a ingressar no programa FIRST do Departamento de Estado dos EUA, que promove o uso seguro e responsável de SMRs (U.S. Department of State, 2025b).
A expertise nuclear da Argentina cria terreno fértil para o desenvolvimento de SMRs apoiado pelos EUA, fornecendo energia confiável e livre de carbono para centros de dados de IA. Essa sinergia eleva a parceria além de uma simples transferência de tecnologia, incorporando liderança tecnológica dos EUA no setor energético argentino em meio à instabilidade financeira. Garante que a Argentina possa sustentar sua transformação digital, com reatores atuando como “barragens digitais” alimentando a próxima geração de infraestrutura de IA.
Minerais Críticos e Terras Raras
A Argentina possui reservas significativas de lítio, cobre, urânio e outros minerais críticos. Em 2025, o país tinha 71 projetos de lítio e 35 de cobre em desenvolvimento (Infobae, 2025). Os acordos EUA-Argentina assinados em 2024 visam garantir cadeias de suprimento não chinesas, apoiadas por agências como a Development Finance Corporation. A demanda por cobre é especialmente urgente: centros de dados de IA em grande escala podem exigir até 50.000 toneladas de cobre, em comparação com 5.000–15.000 toneladas para centros convencionais (Copper Development Association, 2025).
Os minerais críticos não se tratam apenas de segurança de fornecimento; estão diretamente ligados ao suporte de infraestrutura digital e de IA. Conectar as vastas reservas argentinas aos mercados globais alinhados aos EUA garante que o lítio e o cobre sigam por rotas confiáveis, em vez de canais controlados por rivais. Essa colaboração assegura benefícios econômicos e alavancagem geopolítica, garantindo recursos vitais para a IA e indústrias de energia limpa.
Fragilidade Macroeconômica e Risco Político
Desenvolvimentos recentes ressaltam as vulnerabilidades agudas da Argentina. Em setembro de 2025, o país gastou mais de US$ 1 bilhão em reservas para defender o peso, alimentando temores de insolvência (Financial Times, 2025a). A administração Milei enfrenta turbulência política após perder a província de Buenos Aires para a oposição, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade das reformas (Wall Street Journal, 2025).
Os Estados Unidos responderam com ofertas públicas de apoio. O presidente Donald Trump e o Secretário do Tesouro Scott Bessent exploraram mecanismos de estabilização, incluindo linhas de swap e intervenções diretas no mercado dos EUA, evitando oficialmente o termo “resgate” (Reuters, 2025; Al Jazeera, 2025). Essas iniciativas destacam oportunidades e riscos: Washington pode consolidar o alinhamento da Argentina, mas a associação com a controversa austeridade de Milei pode gerar reação interna.
Essa volatilidade significa que as parcerias em IA, nuclear e minerais dos EUA não podem ser isoladas da fragilidade macroeconômica argentina. Planejamento de contingência, investimentos faseados e condicionalidade na governança são essenciais para proteger os interesses dos EUA.
Dinâmica Regional
Brasil
O Brasil, maior economia da América Latina, gera mais de 80% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, com hidrelétricas representando cerca de 48–56% e energia eólica/solar atingindo recorde de 34% em agosto de 2025 (Ember, 2025; Associated Press, 2025a). Essas condições tornam o país atraente para investimentos em IA e nuvem. A Microsoft comprometeu R$ 14,7 bilhões (US$ 2,7 bilhões) e a Amazon Web Services R$ 10,1 bilhões (US$ 1,8 bilhão) para projetos de infraestrutura (Reuters, 2024b; Microsoft, 2024). No entanto, o Brasil também aprofunda laços com a China por meio de laboratórios conjuntos de IA e discussões sobre semicondutores, refletindo sua abordagem de equilíbrio (World Economic Forum, 2025).
Chile e Peru
O Chile é o maior produtor mundial de cobre e um importante exportador de lítio. Seu lítio se qualifica para créditos fiscais nos EUA para veículos elétricos, sob a Inflation Reduction Act, devido ao status de FTA, criando oportunidades de integração na cadeia de suprimentos americana (U.S. Treasury, 2024; Reuters, 2024c). O Peru, rico em cobre e com depósitos de lítio emergentes, continua sendo território disputado. A China controla 60% do porto de Chancay, inaugurado em 2024, destacando a presença estratégica de Pequim (Reuters, 2024a; Financial Times, 2024). O engajamento dos EUA no Peru deve focar em manter o fluxo aberto de minerais e contrabalançar a monopolização dos corredores logísticos.
México e América Central
O México é central nas cadeias de suprimento dos EUA através do USMCA. Washington continua preocupado com empresas chinesas explorando o México como porta de entrada para mercados norte-americanos e enfatizou incentivos de nearshoring e fornecedores confiáveis de 5G para mitigar riscos (Infobae, 2025). Preocupações similares se estendem ao Panamá e Caribe, onde investimentos chineses em portos e telecomunicações levantaram alertas de segurança.
Implicações para a Liderança dos EUA
As parcerias em IA, nuclear e minerais formam um triângulo estratégico para o reengajamento dos EUA no hemisfério. Esses esforços podem:
- Integrar padrões tecnológicos democráticos na infraestrutura digital da América Latina.
- Fornecer energia sustentável para o crescimento da IA por meio de SMRs e energias limpas.
- Garantir cadeias de suprimento de minerais críticos para aplicações econômicas e de defesa.
No entanto, a crise argentina destaca que as parcerias não são imunes à fragilidade macroeconômica ou mudanças políticas. O engajamento dos EUA deve ser adaptativo: oferecendo apoio rápido quando os aliados vacilam, mas condicionando a assistência à transparência e governança. Se Washington hesitar, a China pode intervir com linhas financeiras, como visto em outros estados endividados.
Conclusão
A Argentina ilustra tanto a promessa quanto o risco das parcerias estratégicas dos EUA. A cooperação em IA, energia nuclear e minerais pode servir como alavancas de alinhamento, mas o sucesso depende do gerenciamento da volatilidade das crises. Ao fornecer apoio oportuno e condicional, os EUA podem assegurar seus interesses estratégicos enquanto ajudam a Argentina a se estabilizar.
Trabalhar de perto com os EUA também posiciona a Argentina como um hub atraente para indústrias habilitadas por IA. As parcerias facilitam a criação de produtos e serviços prontos para exportação, adaptados a mercados de língua espanhola, e conectam talentos argentinos a redes globais, ampliando oportunidades de liderança. Essas dinâmicas garantem que o progresso em IA permaneça fundamentado em valores democráticos e boas práticas, reforçando a estabilidade de longo prazo à medida que o cenário digital evolui.
Se executada de forma eficaz, essa estratégia oferece um verdadeiro cenário de ganha-ganha: a Argentina ganha estabilidade e acesso a tecnologias de ponta, enquanto os EUA asseguram cadeias de suprimento críticas e influência em seu entorno próximo. Mais importante ainda, envia um sinal regional poderoso: aqueles que se alinham aos Estados Unidos — em vez da China — podem encontrar que Washington pode fornecer apoio decisivo em tempos de necessidade.
Referências
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