08 Dec Opinião: EUA e Rússia resgatam o manual realista. Má notícia para Pequim
Por,
Fabián Calle, membro sênior, MSI²
Nos últimos dias, começou a circular um rascunho de 28 pontos elaborado sob total sigilo pelos negociadores de Trump e Putin. Tudo indica que os países europeus da OTAN e da União Europeia não foram consultados. Claramente, a Casa Branca atuou como as grandes potências costumam fazê-lo diante de temas sensíveis e de alta relevância, ou seja, de maneira direta e bilateral com a contraparte com a qual busca resolver um conflito.
A imprensa progressista dos EUA e da Europa, poucos minutos após a divulgação do documento, anunciou de maneira dramática que se tratava do abandono da Ucrânia por parte de Washington. Tudo isso temperado com o recorrente clichê da suposta boa predisposição de Trump para negociar com ditadores poderosos em geral e com Putin em particular. Os democratas dos EUA continuam orbitando em torno de um de seus principais lugares comuns na batalha contra Trump desde a derrota de H. Clinton em novembro de 2016. Ou seja, Moscou seria um aliado sigiloso e todo-poderoso do atual residente da Casa Branca.
Em outras palavras, há 9 anos, Putin e seus seguidores manipulariam à vontade a dinâmica política norte-americana. Com um PIB mais de 12 vezes menor que o dos EUA e um terço de sua população, os russos alcançariam seus objetivos dentro da política doméstica americana.
A vitória de Biden em 2020 complica o relato, mas recorrer ao suposto mau manejo de Trump da pandemia chinesa naquele ano serve como variável explicativa. Vale lembrar que, se analisarmos os indicadores de poder econômico, tecnológico, demográfico e cultural, o único rival estratégico de envergadura (e para o tempo vindouro) que os EUA têm após o fim do momento unipolar iniciado com o colapso da URSS é a China e seu partido marxista-leninista.

Portanto, o trauma democrata com a Rússia não fez mais do que facilitar as coisas para Pequim. O sério erro de cálculo de Putin em fevereiro de 2022, gerando uma guerra pensada para durar 3 ou 4 semanas e que já se estende há quase 4 anos, terminou por afetar massivamente os vínculos diplomáticos, econômicos e comerciais de Moscou com os EUA, a Europa e o Japão. Tudo isso facilitou (e facilita) as coisas para os líderes da China comunista.
Desde seu retorno ao poder, Trump tem muito claro esse tabuleiro estratégico e vem buscando uma solução que permita à Rússia uma certa margem de manobra para não ser lentamente engolida pelo gigante asiático. A diplomacia russa sabe muito bem que ficar à mercê de Pequim não é uma opção segura. Esses dois Estados tiveram séculos de desavenças e conflitos, tanto nos períodos monárquicos quanto durante as décadas em que ambos foram regidos pelo comunismo.
Cabe recordar as duras acusações cruzadas entre Khrushchev e Mao desde o fim dos anos 50 e começo dos anos 60, o violento choque militar de 1969 e, finalmente, a aproximação chinesa aos EUA de Nixon e Kissinger em 1972.
A história oficial do regime chinês nunca deixa de recordar a amputação que o país sofreu às mãos dos russos em áreas da atual Sibéria em meados do século XIX. Na fronteira comum, para cada cidadão russo, do outro lado há 20 ou mais.
Voltando aos 28 pontos apresentados por Washington e Moscou a Kyiv, uma leitura mais atenta e desapegada nos mostra algo mais equilibrado e realista do que uma simples rendição incondicional.
Vejamos. A Ucrânia poderia manter forças militares com metade do tamanho das atuais. Ou seja, igual ou pouco mais do que tinha em 2022. Não deverá desarmar-se nem de longe. Sim, reduzir-se-ia a capacidade de atacar a Rússia em profundidade de 100 km ou mais. Como era de se esperar, não seria membro formal da OTAN. No entanto, restam poucas dúvidas sobre a intensa cooperação que continuará existindo entre a Aliança Atlântica e Kyiv em matéria de inteligência, logística e tecnologia militar.
O ingresso na União Europeia não é vetado, o que é uma grande notícia para os esforços de reconstrução pós-guerra. As zonas do Donbas que a Ucrânia entregaria fariam parte de uma faixa desmilitarizada entre ambos.
Da mesma forma, Kyiv terá acesso aos principais rios, bem como a rotas seguras para suas exportações via o Mar Negro. Também se estabelece a convocação de eleições na Ucrânia dentro dos primeiros 100 dias da assinatura do acordo e a suspensão da proibição do russo como segunda língua. Tanto os EUA quanto a União Europeia comprometem-se a aportar 100 bilhões de dólares cada um. No primeiro caso, em troca de recursos naturais estratégicos. Em matéria de sanções econômicas contra a Rússia, elas seriam levantadas gradualmente. Em caso de violação por parte de Moscou, todas seriam reativadas juntas e de maneira imediata.
Por último, mas não menos importante, Washington compromete-se a dar garantias de segurança à Ucrânia se forem comprovadas agressões russas. Se a hostilidade fosse iniciada por Kyiv, a Casa Branca não participaria e cortaria toda a assistência.
Esta breve síntese reflete duas claras realidades. No terreno tático, a Rússia ganha dia após dia um pouco mais de território, tendo a vantagem em quantidade de homens, artilharia e poder aéreo. Existindo a possibilidade real de que, em algum momento do próximo ano, possa ocorrer algum tipo de colapso parcial ou ainda maior das linhas ucranianas. No caso da Rússia, seu beco estratégico se reflete em uma crescente e arriscada dependência da China, sua dependência do preço internacional do petróleo e do gás e a fuga de capital humano valioso.
Será preciso estar atentos aos próximos dias e semanas, nos quais, não por acaso, se combinarão horas decisivas para a ditadura venezuelana e sua mandante, Cuba, e a resposta de Kyiv aos 28 pontos.
Cabe recordar que a Cúpula de Trump e Putin no Alasca, meses atrás, foi desqualificada e criticada por muitos dos principais meios de imprensa e analistas do mundo.
Agora fica mais claro que ali começou a tomar forma um diálogo estratégico que vai muito além da Ucrânia e do curto prazo por parte dos EUA e da Rússia. Se avançar nesse sentido, a China terá que admitir que os bons tempos das fobias e do desvio do diálogo entre a Casa Branca e o Kremlin estão ficando para trás.
Foi bom enquanto durou para as amplas ambições globais de Pequim e de seu governante eterno, Xi Jinping.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as do Miami Strategic Intelligence Institute (MSI²).