21 Aug O pêndulo se move: Bolívia e o fim do ciclo hegemônico da esquerda na América Latina
Por,
Jesús Romero, Senior Fellow, MSI²
Introdução
Em 17 de agosto de 2025, a Bolívia atingiu um ponto de inflexão histórico: pela primeira vez em duas décadas, o Movimiento al Socialismo (MAS) ficou de fora do segundo turno presidencial. O resultado não apenas marca o colapso do partido que governava a Bolívia desde 2006, com Evo Morales como figura central, mas também sinaliza uma mudança no pêndulo político regional, afastando-se dos projetos hegemônicos de esquerda.
O Colapso do MAS
Os números são conclusivos: enquanto Rodrigo Paz (Partido Democrata Cristão) e Jorge “Tuto” Quiroga (aliança Libre) avançaram para o segundo turno com 32% e 27%, respectivamente, os candidatos do MAS mal ultrapassaram 10% dos votos somados. Essa derrota sem precedentes revela o esgotamento de um modelo baseado no controle estatal, na corrupção e na radicalização ideológica (Reuters, 2025a; AP News, 2025; El País, 2025).
O cientista político e diplomata argentino Pedro Von Eyken resumiu claramente: “Ainda não se sabe muito sobre Paz Pereira, o surpreendente vencedor das eleições bolivianas, além de que ele se identifica com uma postura centrista. Um fator-chave será o apoio de Samuel Doria Medina, outro candidato de destaque que já manifestou seu apoio a Pereira antes do segundo turno. Além das incertezas sobre a nova liderança, o resultado envia uma mensagem clara: o MAS e Evo Morales sofreram uma derrota retumbante que remodela o cenário político da Bolívia.”

O Pêndulo Regional
A Bolívia não é um caso isolado. Nos últimos anos, mudanças significativas ocorreram no mapa político da América Latina:
- Argentina: Javier Milei rompeu com o domínio peronista.
- Equador: Daniel Noboa está implementando políticas de choque contra o crime organizado.
- El Salvador: Nayib Bukele consolidou um modelo de segurança de direita.
- Guatemala: cidadãos desafiaram estruturas corruptas arraigadas.
Esses exemplos destacam eleitorados cansados de promessas não cumpridas e hegemonias arraigadas, exigindo cada vez mais pragmatismo econômico, segurança e governança.
Venezuela e o Esgotamento do Socialismo do Século XXI
Um dos fatores estruturais por trás do colapso do MAS é o fim da diplomacia venezuelana de controle do petróleo. Durante os anos de boom do petróleo (2005-2013), a Venezuela financiou governos aliados por meio de empréstimos em condições favoráveis, petróleo subsidiado e programas como Petrocaribe e ALBA. Com esses recursos, Caracas sustentou governos amigos como o de Evo Morales na Bolívia.
Hoje, essa capacidade desapareceu:
- A economia da Venezuela foi devastada por sanções internacionais e pela corrupção da PDVSA.
- O regime de Maduro, controlado pelo Cartel de los Soles (designado como organização Terrorista Global Especialmente Designada em 2025), aloca seus escassos recursos para a sobrevivência política e militar.
- A rede de subsídios externos entrou em colapso, deixando partidos como o MAS expostos à realidade de governar com seus próprios meios.
Sem o apoio de Caracas, o “Socialismo do Século XXI” não conta mais com o apoio financeiro transnacional que o transformou em um bloco regional.
A Bolívia como Barômetro
A Bolívia agora surge como um barômetro do declínio do Socialismo do Século XXI por vários motivos:
- Fazia parte do núcleo ideológico ao lado de Venezuela, Cuba e Nicarágua.
- Dependia fortemente do financiamento do petróleo venezuelano para sustentar seus programas sociais.
- Seu colapso eleitoral é a primeira grande derrota do bloco na região.
- O segundo turno de outubro confirmará se a Bolívia se junta definitivamente à guinada regional em direção ao centro e à direita.
Assim como no início dos anos 2000, a Bolívia foi um laboratório para o chavismo continental; hoje, pode se tornar o primeiro caso de teste de seu colapso estrutural.
Washington e a Doutrina Trump: Um Momento Decisivo
Para Washington, as eleições na Bolívia não são apenas uma mudança política interna — elas representam uma abertura estratégica. Durante as duas primeiras décadas do século XXI, o Socialismo do Século XXI — apoiado pela Venezuela e Cuba — foi concebido para erodir a hegemonia hemisférica dos EUA, enquanto os Estados Unidos se concentravam no Oriente Médio e na guerra contra o terror.
Com a chegada de Donald Trump, a política externa dos EUA adotou uma doutrina de pressão máxima contra os regimes de Caracas, Havana e Manágua. Essa estratégia incluía:
- Sanções econômicas sem precedentes.
- Reconhecimento diplomático da oposição da Venezuela.
- Fortalecimento da cooperação hemisférica contra o narcotráfico e o terrorismo.
- A recente designação do Cartel de los Soles como uma organização Terrorista Global Especialmente Designada (SDGT) (2025).
Nesse contexto, a derrota do MAS na Bolívia representa uma oportunidade para Washington consolidar a queda do bloco chavista e reconfigurar o equilíbrio continental. Este é um momento histórico: a narrativa do Socialismo do Século XXI, que antes exportava poder e propaganda, agora é um projeto em retrocesso.
Este é o momento geopolítico para os Estados Unidos, juntamente com aliados regionais, aplicarem a Doutrina Trump e encerrarem definitivamente o ciclo “chavista” que por anos desafiou a liderança hemisférica dos EUA.
Conclusão
A eleição na Bolívia provou que o Socialismo do Século XXI também pode ser derrotado nas urnas. O MAS não conseguiu sustentar sua hegemonia, e nem Venezuela, Cuba ou Nicarágua conseguiram fornecer apoio suficiente para impedir seu colapso. O que antes era promovido como um projeto irreversível foi reduzido a uma minoria, confirmando que o pêndulo político regional está se movendo e que o voto popular continua sendo a ferramenta mais poderosa contra regimes autoritários.
A Bolívia não apenas encerra duas décadas de domínio do MAS, como também reflete o esgotamento da influência venezuelana e se torna um termômetro do declínio do socialismo do século XXI. Para Washington, este é o momento de aplicar a Doutrina Trump e garantir que este ciclo se feche de uma vez por todas.
Referências
Al Jazeera. (17 de agosto de 2025). Bolívia vai às urnas com a expectativa de fim de 20 anos de governo esquerdista. Al Jazeera. https://www.aljazeera.com/news/2025/8/17/bolivia-heads-to-the-polls-as-20-years-of-leftist-rule-expected-to-end
AP News. (18 de agosto de 2025). Bolívia vai a um segundo turno após uma eleição que encerra duas décadas de domínio do partido governista. AP News. https://apnews.com/article/7d24bfd2bc87e4f312d574663aee9f5d
El País. (18 de agosto de 2025). Rodrigo Paz e Tuto Quiroga disputarão a presidência da Bolívia em outubro. El País. https://elpais.com/america/2025-08-18/rodrigo-paz-y-tuto-quiroga-se-disputaran-la-presidencia-de-bolivia-en-octubre.html
Reuters. (2025, 18 de agosto). Bolívia segue para segundo turno após guinada à direita na eleição presidencial. Reuters. https://www.reuters.com/world/americas/bolivia-heads-runoff-after-right-turn-presidential-vote-2025-08-18/
Reuters. (2025, 18 de agosto). Quem são os candidatos à presidência da Bolívia que prometem reforma econômica? Reuters. https://www.reuters.com/world/americas/who-are-bolivias-presidential-runoff-contenders-promising-economic-overhaul-2025-08-18/
As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Miami Strategic Intelligence Institute (MSI²).