30 Oct Opinião: Milei, Trump e a geopolítica do Atlântico Sul
Por,
Fabián Calle, representante da Argentina e membro sênior, MSI²
A relação entre Javier Milei e Donald Trump não pode ser entendida apenas pela afinidade ideológica ou pelo estilo político. Existem fatores geopolíticos, estratégicos e econômicos que ajudam a explicar por que os Estados Unidos, sob a atual administração republicana, deram um apoio tão forte e, para muitos, inesperado ao governo argentino.
O Atlântico Sul e a Antártida: o tabuleiro estratégico
Um dos elementos-chave é a crescente importância do Atlântico Sul. Em caso de conflito global, os porta-aviões norte-americanos não entrariam pelo Panamá, que, além disso, pode ser neutralizado com relativa facilidade. A projeção marítima para o sul é vital, especialmente com o horizonte da Antártida: em menos de trinta anos vence o Tratado Antártico, e as grandes potências (principalmente os Estados Unidos e a China) já consideram um cenário de degelo, exploração de recursos naturais e maior competição.
Nesse contexto, a Argentina adquire um peso estratégico que transcende o nível regional.
Uma vizinhança áspera com Washington
O mapa político sul-americano não favorece os Estados Unidos. O Brasil, sob Lula, mantém uma relação difícil com Washington: confrontativa no plano ideológico, próxima da Venezuela, China, Rússia e Irã, com discursos que visam enfraquecer o dólar ou justificar agressões de Moscou e Teerã. O Chile, embora com mudanças no horizonte, continua governado pela esquerda; Petro, na Colômbia, é ainda mais hostil em relação a Washington. Diante desse panorama, Milei se apresenta como um aliado singular: pró-americano, pró-ocidental e pró-capitalista.

Trump e a memória política
Além da geopolítica, Milei cultivou com habilidade sua relação pessoal com Trump. Ele o apoiou publicamente quando muitos consideravam certa a vitória de Kamala Harris. Esse gesto, em política internacional, não se esquece. Trump se lembra de quem esteve ao seu lado nos momentos difíceis.
Além disso, sua administração conta com figuras-chave que conhecem bem a América Latina: Marco Rubio no Departamento de Estado, Mike Waltz como embaixador dos EUA na ONU ou Susan Wiles como chefe de gabinete. Muitas dessas figuras são da Flórida, falam espanhol e compreendem os matizes políticos da região. Por isso, não surpreendeu que uma das primeiras medidas fosse aplicar sanções por “significativamente corruptos” a Cristina Fernández de Kirchner, seus filhos e aliados, restringindo vistos e negócios com empresas norte-americanas.
Um apoio econômico sem precedentes
Essa rede política e pessoal resultou em um respaldo concreto: um swap que permite à Argentina enfrentar com maior facilidade seus compromissos externos de 2026 e até parte de 2027, além de intervenções diretas comprando pesos. Washington só havia intervindo antes em ienes e euros, nunca na moeda argentina.
O mandato social de Milei
No plano interno, Milei assumiu com um mandato social claro: estabilizar a economia e controlar a inflação. Em 2023, a Argentina mergulhava no caos, com preços que mudavam diariamente e uma inflação projetada em cifras hiperinflacionárias de cinco dígitos. Hoje, o país mostra sinais de recuperação: crescimento estimado em torno de 4-5% para este ano e o próximo, uma inflação drasticamente reduzida e um desemprego que, embora tenha subido, não o fez de maneira alarmante.
Esse êxito econômico explica, em grande parte, o resultado das recentes eleições legislativas. O “círculo vermelho” e parte da imprensa não souberam ler o clima social: a cidadania premiou a estabilização após o desastre de 2019-2023, um período que deixou uma marca traumática e que apagou inclusive da memória coletiva o colapso de Fernando de la Rúa.
A confluência de fatores geopolíticos, a aposta pessoal de Milei em Trump e a estabilização econômica interna se combinaram para gerar um cenário inédito: a Argentina aparece como o principal aliado estratégico de Washington na região. Uma posição que, longe de ser circunstancial, pode marcar o rumo da política hemisférica nos próximos anos.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as do Miami Strategic Intelligence Institute (MSI²).